21 de jun de 2012

Presidente da Fetaemg diz que novos avanços só virão a partir de luta e organização


A Federação dos Agricultores na Agricultura de Minas Gerais (Fetaemg) obteve grande destaque durante a realização do 18º Grito da Terra Brasil, realizado no final de maio, em Brasília. Para seu presidente, Vilson Luiz, o evento foi uma demonstração de que apenas com muita pressão, luta e organização por parte dos trabalhadores e trabalhadoras será possível obter novos avanços e preservar as conquistas já obtidas.
A Fetaemg comemorou, no último dia 27 de abril, 44 anos de existência. Diante desse momento importante e das diversas mobilizações e desafios que permeiam os trabalhadores rurais mineiros, Vilson Luiz, que também é secretário de Finanças da CTB, também faz um balanço da atuação de sua entidade e projeta os planos para o próximo período.
Em relação aos trabalhos e enfrentamentos diários que a Fetaemg vem realizando, o presidente reafirmou o compromisso principal com a reforma agrária e com a valorização dos assalariados como formas de lutas contra o agronegócio e o capital internacional. Destacou também sua participação na Rio+20, na 7ª Agriminas, seu ponto de visto sobre o Código Florestal e as principais dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores rurais. Confira abaixo a íntegra da entrevista:
Portal CTB: Como a Fetaemg analisa o 18º Grito da Terra Brasil?
Vilson Luiz: O primeiro ponto que eu quero colocar é que o Grito foi altamente positivo. Foi a verdadeira retomada do grito da nossa Contag, do nosso movimento sindical, tendo o apoio da nossa central, a CTB. Isso foi um fato importante. Nós, da Fetaemg, estivemos ao lado do Joílson Cardoso, secretário de Política Sindical e Relações Institucionais da CTB. Outro fator que para mim é importante como presidente da Fetaemg e membro da executiva da CTB, é que Minas Gerais levou 58 ônibus, ou seja, mais da metade do Grito da Terra nacional. Então, praticamente, foi um grito de Minas, se comparado com algumas federações que levaram apenas um ônibus. O entendimento entre as nossas delegações também foi outro fator importante. A questão da organização, a nossa caminhada durante a manifestação, as falas que nós fizemos – tudo isso foi importante. Até mesmo para darmos o tom para a nossa base, para as nossas delegações, os trabalhadores e as nossas lideranças para reforçar que as nossas conquistas só virão através da luta e da organização. A reivindicação tem que ter pressão, o governo tem que ser pressionado.
Portal CTB: O que a Fetaemg achou dos encaminhamentos do governo federal quanto à pauta de reivindicações do Grito da Terra, com a reforma agrária sendo deixada de lado?
Vilson Luiz: No tocante à nossa pauta de atendimento, o governo precisa ter mais sensibilidade com nós do campo. A Dilma está muito dura e na reforma agrária o governo não quer nem falar. E como nós, enquanto país, vamos discutir segurança alimentar, avanços, geração de emprego no campo, sendo que o governo não faz verdadeiramente a reforma agrária? Até quando o governo vai fica sem atacar a questão agrária brasileira, até quando o governo vai deixar que o capital internacional, o grande latifúndio, os grandes empreendimentos e banqueiros continuem comprando terra aqui no Brasil? 
Em relação aos créditos propriamente ditos, como o Pronaf (Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar), nós pedimos R$ 22 bilhões e a Dilma nos cedeu R$ 18 bilhões. Sendo assim, como é que o governo pode falar que a agricultura familiar é importante para o Brasil, que representa 70% da produção da segurança alimentar, dos alimentos que entram na mesa dos brasileiros, no dia a dia, sendo que o agronegócio do grande capital continua levando mais dinheiro. Nós saímos pouco satisfeitos. Queríamos ter avançado mais, a nossa pauta tinha mais de 200 itens de reivindicações e negociações com o governo, e com os vários ministérios com que temos ligações.
Mas não vamos desistir, até porque nosso papel é continuar organizados, lutando, pelejando e reivindicando do governo. Não vamos nos dar por vencidos. Muito pelo contrário: em relação a Minas Gerais, estou muito feliz com a nossa organização do 18º Grito, que pode não ter avançado muito, mas pelo menos as delegações entenderam o nosso papel, nossa função: para avançar temos que nos organizar e nos mobilizar. É preciso sair de trás do sindicato, de trás da mesa e ir para luta para que possamos avançar e trazer dias melhores para o nosso povo que está no meio rural.
Portal CTB: Como estão os projetos de reforma agrária existentes no estado e que são apoiados pela Federação?
Vilson Luiz: A questão do trabalho dos Incras em todo o Brasil está péssima, inclusive Minas Gerais fez um ato dentro do Grito da Terra. Eu e mais uma equipe de liderança fomos até a sede do Incra e entregamos uma pauta ao presidente. E estipulamos um prazo de 15 dias, sendo assim depois da Rio+20 nós vamos voltar a Brasília e cobrar uma resposta em relação à pauta, pois o Incra tem deixado muito a desejar, mas não vamos desanimar, vamos insistir, porque esse é o nosso papel.  De uma forma geral, vejo o Incra como uma estrutura organizacional que tem o papel fundamental na reforma agrária, porém está muito desmotivado e descompromissado.
Portal CTB: Quais são no momento os principais desafios para os trabalhadores rurais de Minas Gerais?
Vilson Luiz: A nossa bandeira principal é a reforma agrária, que envolve uma série de questões agrícolas. Outro ponto é o respeito para com o nosso assalariado, já que o governo tem dado muito prestigio, muito subsidio para o agronegócio, para as indústrias que têm entrado no campo com suas máquinas, tirando nossos postos de trabalho, sendo que todo mundo precisa de trabalho.Outra questão na qual estamos focados é na organização das nossas lideranças, porque não adianta termos uma boa pauta se as lideranças não estiverem comprometidas. Nesse sentido, também estamos no combate cobrando o governo estadual. 
Então nós precisamos levantar voz, porque o governo precisa ser cobrado diariamente. Assim que terminar a Rio+20, a Fetaemg vai lançar a campanha Movimento Sindical em Ação. Vamos junto com a nossa base mobilizar e capacitar as lideranças para organizar projetos e dinâmicas que possam estimular os dirigentes a implementarem em suas bases, nos seus municípios, as políticas públicas que nós temos conquistados.
Portal CTB: Quais as expectativas para a 7º edição da Agriminas e a importância da feira para o fortalecimento da agricultura familiar mineira?
Vilson Luiz:Nós estamos trabalhando muito e já temos propaganda da Agriminas sendo 
divulgada em vários veículos de comunicação. O evento é importante e precisamos levar o máximo de pessoas possível e mostrar para elas que nós produzimos, expondo nosso trabalho. Pois os produtos produzidos pela agricultura familiar, o próprio nome já diz, simboliza a família trabalhando, não são máquinas. Enquanto o empresário só pensa em máquinas, que substitui a mão de obra humana, nosso caso é diferente, pois estamos trabalhando preocupados com a estabilidade e a segurança alimentar, preocupados com os produtos, que serão servidos nas mesas de todos os brasileiros.
A Agriminas, além de ser uma vitrine para os visitantes, é também uma oportunidade para que os agricultores familiares, através de suas associações de agroindústria familiar, possam abrir mercados e vender seus produtos. Nós trabalhamos a organização da produção, do crédito, a assistência técnica e precisamos descobrir mercados locais, estaduais, regionais, nacionais e até internacional. Já estamos indo para a sétima edição, e já há agricultores vendendo queijo para a Itália. Temos hoje exemplos de pessoas que eram empregados e hoje já possuem seu próprio negócio. Eles têm os conceitos para ser bons empreendedores que trabalham com suas famílias e com suas cidades, ajudando a gerar empregos, renda e sabendo cuidar e usar bem os recursos naturais.
A CTB é a nossa parceira e está estampada nos matérias de divulgação. A expectativa é pelo sucesso de mais uma feira, na qual Belo Horizonte se tornará a capital dos negócios para a agricultura familiar e para os assentamentos de reforma agrária também.
Portal CTB: Quais são as expectativas em relação à Conferência Rio+20?
Vilson Luiz: Irei participar da Rio+20 representando a CTB,  e estou muito preocupado, porque os movimentos urbanos e outras categorias, quando falam de preservação ambiental, só pensam em nós, da roça. A cidade precisa se mover e pensar nos impactos que também causam para o meio ambiente. Estarão lá muitas entidades ambientalistas de peso, as grandes empresas, os governos de países e, se nós não estivermos altamente organizados, eles vão nos trucidar. Estou muito focado na minha fala sobre a questão da segurança alimentar, pois precisamos saber usar os recursos naturais com equilíbrio e ter um manuseio de produção de sustentabilidade sem agredir o meio ambiente. Há muitos ambientalistas que são muito radicais, que inclusive são mantidos por grandes empresas que prejudicam o meio ambiente. Eles focam em cima dos pequenos agricultores e por isso nós temos que ir para a Rio+20 e mostrar nossa indignação e também ter capacidade e inteligência para mostrar nossas propostas.
Portal CTB: Já são 44 anos de existência da Federação. Quais as principais conquistas e os desafios para o próximo período?
Vilson Luiz: Eu fico muito feliz em participar desse processo que a Fetaemg comemorou no 
dia 27 de abril, de 44 anos de existência, lutas e organização. A Fetaemg é a maior federação do sistema Contag e da América Latina. A Federação está caminhando para 600 sindicatos organizados em Minas Gerais e há a cada dia mais trabalhos e demandas. Outro motivo de alegria é que a nossa Federação foi a primeira a se filiar à CTB, por unanimidade. A Fetaemg em todos esses anos vem estendendo o processo de organização. E com o principio de organização, nós temos conquistados muitas conquistas para os nossos trabalhadores. Nós pautamos com o governo e com as autoridades os gargalos que nós enfrentamos aqui no dia a dia esse é o nosso diferencial. A Fetaemg tem feito isso e a Contag e a CTB estão cientes.
Eu sou uma pessoa que, mesmo diante de dificuldades, se mantém otimista, porque temos que trabalhar para conquistar um futuro melhor para os nossos trabalhadores. Trabalho na roça desde pequeno e dedico minha vida ao movimento sindical rural e gostaria de ver mais comprometimento dos demais dirigentes para com os trabalhadores, porque é somente com a dedicação de todos que podemos avançar e obter mais conquistas.
Portal CTB: Sobre o novo Código Florestal, o que os vetos da presidenta Dilma significam para os trabalhadores rurais?
Vilson Luiz: Nós analisamos com bons olhos, porque a presidenta Dilma não poderia sancionar do jeito que estava – e essa novela precisava ter um fim. Evidentemente tivemos prejuízo quando foram feitas as propostas de alteração, pois se o Código Florestal tivesse sido votado da forma como ele estava quando tinha sido formulado no início, ele seria melhor para a agricultura familiar e para o pequeno agricultor. Mas os vetos da Dilma foram sábios e ela entendeu que o agricultor familiar tem que ser tratado de forma diferente em relação ao agronegócio.
Paula Farias – Portal CTB

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